O Sonho do Messias
01/01/2010
Messias era um menino comum destes que povoam as nossas igrejas. Filho de crente, de família humilde, o pai servente de pedreiro, a mãe dividia-se entre a dupla tarefa de cuidar dos serviços domésticos e costurar para os amigos e familiares. Eram mais três filhos além do Messias que era o mais velho.
Quando criança Messias tinha um sonho ser pastor, ora influenciados pelos sonhos da Mãe, ora arrebatado pelos belos e calorosos sermões que ouvia nos cultos que participava.
Garoto esperto foi alfabetizado por uma tia que era empregada doméstica e passava os finais de semana em sua casa por falta de opção de lazer. Assim, quando foi pra escola, o garoto, já sabia ler e escrever.
Neste tempo, Messias dividia-se entre ir para a escola e ajudar a mãe nos cuidados com os irmãos. O pai também lhe encarregara de fazer as leituras bíblicas nos cultos familiares diários.
Bom estudante, logo descobriu a biblioteca da escola e o mundo dos livros. Começou com a coleção Vaga Lume e seus personagens aventureiros, dos chamados livro evangélico gostava dos livros testemunhos, principalmente os que contavam histórias de missionários.
Na bíblia adorava ler Salmos e estudar os evangelhos e Atos. Gostava, sobretudo com a forma simples e contextualizada da mensagem de Cristo. Identificava-se com a igreja de Atos e com sua forma simples de viver o evangelho e a partilha dos bens e da comunhão.
Para a alegria de toda a família entrou na faculdade, queria fazer direito, pois acreditava que assim, aprenderia oratória e conseguiria em fim, superar sua terrível timidez. Esta sim era terrível, principalmente quando chegava perto de alguma menina da igreja.
No domingo do vestibular o pastor chamou-lhe a frente para fazer uma oração de agradecimento a Deus, depois, lhe deu um sermão sobre os perigos e armadilhas que encontraria na faculdade. Depois do culto, virou a celebridade da igreja, todos queriam cumprimentá-lo pela conquista. Até porque ele era o único da comunidade que tinha entrado na faculdade. Até as meninas começaram a perceber que ele nem era tão feio como elas imaginavam.
Na faculdade Messias encontrou outros irmãos de fé e começou a participar de um grupo de universitários cristão. Adorava aquelas reuniões, como trabalhava o dia todo e estudava a noite andava sem tempo de ir à igreja. Aqueles momentos de leitura da Bíblia e comunhão que tinha entre uma aula e outra lhe refrescavam a alma.
Aos poucos Messias foi afastando-se da comunhão da igreja, andava chateado com a mensagem que pregavam lá, parecia-lhe muito diferente daquele lera nos evangelhos.
Não se identificava com a igreja, não sabia por que, jamais deixara de amar a Cristo e as pessoas que iam lá, apenas achava que a mensagem do evangelho deveria contribuir para as pessoas se libertem da situação espiritual e material que se encontravam e não para justificar o consumo de bens materiais, que na sua maioria são desnecessários e passageiros.
Sobre o futuro já havia decidido, o que queria mesmo ser era juiz, e conjeturava que a sua perspectiva de evangelho não seria aceita pela comunidade evangélica.
Certo dia pegou o ônibus depois do trabalho para a universidade como fazia todos os dias, ao passar por uma favela, viu um aglomero de pessoas, o ônibus não conseguiu mais andar, tamanho era o engarrafamento. Como todos os passageiros, desceu e começou a caminhar rumo ao entrevero.
No caminho soube que aquela comunidade acabara de ser destruída por um terrível incêndio. Desconfiava-se ser um incêndio criminoso, pois no lugar planejava-se construir um Shoping Center.
A chegar mais próximo encontrou dois homens abraçados, um em prantos e o outro chorando junto. Era seu pastor, consolando um presbítero da igreja que acabara de perder tudo no incêndio criminoso.
Naquele momento teve certeza que o evangelho deve ter a capacidade de estar ao lado dos pobres e excluídos. Sentiu saudades daqueles sermões calorosos, lembrou da inocência de seus sonhos de adolescentes, com vergonha de chorar, escondeu-se atrás de uma caminhonete e entregou seu futuro ao Senhor.

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