Há Contradições na Bíblia?
28/08/2008
Será que na Bíblia existem contradições?
Vejamos este caso:
I João 1:10
“Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”
I João 3:6
“Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu e nem o conheceu.”
Em princípio estes versos parecem se contradizer. O primeiro fala que devemos admitir que somos pecadores senão estamos fazendo Deus se tornar mentiroso e declaramos assim que não guardamos seus preceitos. Já por outro lado, João diz que é possível não pecar se convivermos com Cristo.
Como seria possível entender tal contradição do apóstolo? De início, é bom lembrar que o método de estudos adotado para trabalhar-mos estes textos é o método gramático histórico. Este visa buscar a verdadeira situação e o contexto psico-sócio-político contemporâneo da passagem bíblica, através do estudo da gramática e da história. E será por ele que se encontrará a solução para esta aparente contradição.
No Comentário Bíblico que faço sobre este assunto afirmo que João 1:10 é o 3º verso de uma seqüência mais específico na reivindicação para santidade.
Quando João escreveu, ele e toda a igreja primitiva sofriam por causa da inseminação doutrinária provocada pelos falsos mestres que estavam a perverter o evangelho pregado.
Os gnósticos era uma linha teológica deturpada. Eles negavam a pecaminosidade essencial, com base em diversas considerações:
1. Diziam eles que a alma humana é pura, por ser emanação de Deus, ao passo que o corpo físico é pecaminoso, por ser participante da matéria, a qual é o princípio do pecado. Assim, da mesma forma que o ouro pode ser mergulhado na lama sem perder o valor, a alma pode ser mergulhada na lama do corpo sem se contaminar. Portanto, o corpo, mesmo abusando do ascetismo ou pelos excessos de imoralidade, não afeta a alma que é o homem essencial e sem pecado.
2. Achavam-se superiores aos padrões morais, por pretenderem estar ligados intimamente com Deus (unidade).
3. Achavam-se sem pecado por causa do (suposto) avanço espiritual que os tornara “perfeitos”.
Dentro deste combate teológico, João argumenta que é muito fácil dizer mas é difícil provar que não tinham pecado. Logo ele usa o espelho da lei que é a personalidade de Cristo. Como pode dizer que têm amizade com Deus se estão em Trevas? É claro que ninguém, senão somente Deus pode ler o coração humano, mas dizer que está em um nível superior e não peca, é inconcebível por causa das suas ações.
Romanos 3:23 diz que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Baseado nesta afirmação, os gnósticos faziam de Deus um mentiroso.
A expressão grega “ amartian ouk ecomen ” (hamartían uk éxomen) , pode ser lida como “nós não temos pecado”. Pecado considerado com ato. A declaração ‘não tem pecado’ é parecida com ‘não tem estado pecando’. A diferença está na forma dos verbos, de acordo com a diferença entre a idéia de quantidade de ‘pecado’ (atos) e a idéia de multidão de ‘nossos pecados’ (condição)”.
Portanto João, no primeiro verso, está dizendo aos gnósticos que a palavra de Deus (a divina mensagem) não está neles. “A verdade é a substância da palavra. A palavra leva verdade. A palavra nasce e move o homem e permanece nele. O homem também permanece na palavra”. Como podiam eles dizer-se sem pecado se não mudaram sua conduta moral através de Jesus Cristo, o único que pode transformar.
I João 3:6
“Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu nem o conheceu”.
No exemplo anterior João se dirige a falsos mestres que alegam santidade à parte de Deus. Neste caso, sua atenção não está voltada para eles, mas para os cristãos. Seu desejo é fortalecer. Sua visão não está sobre os atos pecaminosos, mas sobre uma vida longe de Deus que está em pecado (condição, situação).
A palavra ‘permanece’ deve sugerir uma ativa boa vontade para permanecer em união com Cristo. A forma do verbo Grego implica ‘continuamente’- “todo aquele que continua a permanecer”. Pode-se utilizar ainda a forma “não continua a pecar” ou “não peca habitualmente”, “como a forma do verbo grego expressa. O apóstolo está aqui falando de habitual pecado, não de ocasional falha o qual todo cristão é propenso a fazer. João sabe que os cristãos são seduzidos no pecado, mas ele também conhece o remédio para cada falha. Aqui ele está falando da declaração ideal que é atingível por aquele que habitualmente permanece na presença protetora do Salvador. Tal declaração é a que os gnósticos deveriam defender.
“Cada pessoa que é convertida em Cristo pela fé e pela fé permanece em Cristo, simplesmente não vive pecando”
Conclusão
João, nestes textos não está se contradizendo. Está lidando com situações diferentes. No primeiro ele combate uma falsa doutrina e se refere a pecados ações. No segundo, o apóstolo está encorajando os seguidores de Cristo a permanecer nEle para vencer o pecado que vive no corpo (condição). Há um recurso de linguagem poética utilizada pelos hebreus. O paralelismo por contraste que visa fixar uma mensagem com maior intensidade e impacto.
Permanecer é mais do que estar nEle, visto que representa uma condição mantida pela comunicação com Deus e por fazer habitualmente a sua vontade.


1 Comentário
É bom conhecer e relembrar a seguinte verdade: nenhum filósofo, nenhum lógico, nenhum matemático, nenhum teólogo, nenhum cientista ou qualquer outra pessoa, no passado ou no presente, jamais encontrou uma única contradição nas páginas da Bíblia. Fizeram-se e fazem-se tentativas de mostrar que a Bíblia é inexata e contraditória, às vezes querendo fazer com que os leitores, seguidores e divulgadores da mensagem da Bíblia sejam vistos como desprezíveis, ignorantes, tolos ou ridículos. Porém, invariavelmente, as pessoas que alegam contradições na Bíblia o que fazem é o seguinte: (1) escolhem duas ou mais sentenças bíblicas; (2) escolhem uma interpretação incompatível ou contraditória para essas sentenças; (3) e depois afirmam que a Bíblia é contraditória. O certo é que a Bíblia é um todo coerente. Na verdade, todas as alegadas contradição residem na INTERPRETAÇÃO que essas pessoas decidiram escolher, quando está disponível e acessível a todos, normalmente através do contexto ou de outras passagens bíblicas, a interpretação compatível, não-contraditória e razoável das passagens bíblicas que podem, à primeira vista, suscitar alguma dificuldade de compreensão. Deste modo, a contradição que essas pessoas alegam NÃO reside no que a Bíblia diz, mas naquilo que ELAS, segundo a prévia interpretação que decidiram escolher, DIZEM que a Bíblia diz ? mas que a Bíblia realmente não diz. Naturalmente, no exercício, do meu livre-arbítrio, eu sou livre para, de um cesto de maçãs que tem à vista maçãs boas e maçãs podres, escolher tirar uma maçã podre. Problema meu. Também, perante a Escritura, sou livre para ESCOLHER uma interpretação contraditória, mas aí também o único responsável por isso sou eu. Não poderei jogar as culpas na Bíblia ou em outras pessoas, por isso. Às vezes, esforçando-me por conseguir a boa interpretação, eu posso ter dificuldade em ver qual seria essa interpretação correta de certa passagem bíblia. É interessante que a Bíblia contém pelo menos uma situação igual a essa, que é a do eunuco etíope. No livro de Atos 8:26-38, esse homem de religião judaica temente a Deus estava lendo o texto de Isaías 53:7,8 e estava tendo dificuldade na interpretação dessa passagem bíblia. O evangelizador Filipe abordou-o e informou-o de uma interpretação de Isaías 53:7 e 8 diferente da interpretação que os líderes religiosos do judaísmo lhe propuseram e que ele tinha aceito até ali. Esse homem instruído, membro do Governo da Etiópia, humildemente aceitou a interpretação proposta pelo evangelizador Filipe, com um resultado muito feliz.
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