A leve diferença entre a memória e o saudosismo
10/06/2009
Essa história começa em 1930, quando um jovem casal dos Espinheiros em Itajaí foi agraciado, no dia dezenove de março, com o nascimento de uma menina. Sinhá e seu amado Jasmeno batizaram a sua segunda filha como Maria José de Souza.
Mesmo familiarizado com estes nomes lusitanos, por muito tempo ignorei que minha oma (avó) não fosse descendente de alemães. Afinal, ouvia os vizinhos chamando-a de fraw Wackernagel. Desconfiava somente que os seus parentes lhe chamavam de tia Baíca.
Nas conversas com a oma Maria, ela sempre incluiu algum fato vivido. Suas ricas narrativas divertiram muitas tardes. Lembro-me de quando contou sobre a conversão de sua família, sua vinda para Blumenau, as idas à Gaspar para evangelizar, os namoros, especialmente como seus olhos verdes mobilizaram o opa Heinz. Um detalhe que lembro sobre as paqueras, era que ocorriam nas confeitarias e aos domingos à tarde.
Quantas histórias, algumas cômicas e outras trágicas, sem nenhuma vez lembrar-me de ter ouvido Dona Maria enunciar as sorumbáticas palavras: no meu tempo não era assim! Diferente disso, conta-nos sobre os tabus com risos, como o dia em que foi censurada por comprar o seu primeiro rádio. Alguns destes fatos foram mediados por imagens, não necessariamente fotos, mas pelas minúcias que ela é capaz de relembrar e transmitir. Além destas ocasiões de encontro com o passado em sua sala de costura, também o som de seu bandolim tocando hinos me emociona até agora!
A oma Baíca decidiu não ser uma alma antiga. Com a sua filosofia da alegria nos faz entender que o saudosismo não vale à pena, pois pode tornar-se um ressentimento, embotando os afetos. Na verdade, o saudosismo é uma saudade pessimista, um desperdício diante das novidades do Evangelho. Para Dona Maria, a vida é o presente!
A memória por sua vez, é um saber sobre a vida que se atualiza. Consciência presente de quem prefere fazer história a viver na lembrança. Sei dizer que minha avó passou dias de lágrimas, mas não sei como, ela prefere nos afetar positivamente. Tenho a impressão que isto alimenta a sua vitalidade, a sua saúde.
Minha querida Maria, muito obrigado pelo entusiasmo, pela intercessão e pela fé na vida. Pessoas como você aliviam o fardo dos jovens, fazendo-nos prosseguir mais pela graça do que pela força!


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